O TOMA do futuro

É complicado imaginar o futuro do TOMA. Já passaram 16 anos desde que se criou a Linha Azul, a última adição à rede. Num sistema tão desatualizado, só podemos especular se o próximo passo será finalmente uma reformulação total ou apenas mais um remendo. Importa perceber os impactos desta estagnação e refletir sobre aquilo que a cidade poderia ganhar com um verdadeiro sistema de transportes urbanos.

Os impactos da estagnação

O TOMA não afeta apenas quem o usa. A sua estagnação tem impacto diário em todos nós. Se hoje o volume do tráfego rodoviário é muito superior, os congestionamentos são diários, as filas para as escolas são cada vez maiores, o mau estacionamento prevalece e o estacionamento desaparece, um dos culpados é o transporte urbano que nunca evoluiu nem acompanhou ou teve capacidade de balancear a procura.

Sem soluções de mobilidade credíveis, a população fica dependente do carro. O centro da cidade torna-se menos acessível, perde vitalidade e perde clientes, enquanto as novas superfícies comerciais continuam a ser preferidas pela facilidade de acesso.

Como devem ser as linhas do TOMA?

As linhas atuais já não fazem sentido. É preciso desenhar uma rede nova, com base em princípios claros:

  • Mais linhas: cidades com menos habitantes do que as Caldas, como Évora, Vila Real ou Covilhã, têm mais de 10 linhas. O TOMA, com apenas 3, está muito aquém. O mínimo aceitável seria uma rede com 8 linhas, ligando áreas periféricas como o Coto, Tornada, São Cristóvão, Lagoa Parceira ou a Zona Industrial.
  • Linhas com início e fim: As linhas circulares não funcionam! São pouco eficazes e geram percursos longos e desnecessários, pois não tem objetivo, são simplesmente um circuito para chegar a todo o lado sem pensar na fluidez. Linhas com ínicio e fim são diretas, com destino definido e tornam as viagens mais rápidas e organizadas, dão descanso aos motoristas e evitam as atuais trocas demoradas no Centro de Saúde que atrasam as viagens e consomem largos minutos a quem está a meio do rota.
  • Frequências competitivas: 10/15 minutos nas horas de ponta e 20/30 no resto do dia.
  • Horários alargados: durante a semana até às 21/22h, ao sábado até à tarde e ao domingo de manhã. Uma cidade não pára ao fim de semana.
  • Linhas noturnas e de madrugada, assegurando mobilidade para quem trabalha por turnos, ou num caso que está a ganhar muitos passageiros, servir as Rápidas.
  • Linhas especiais: reforço para grandes eventos (Feira dos Frutos, Caldas Late Night), eventos desportivos (Caldas SC,  Ladies Open) e ligações sazonais (Foz do Arelho no verão).
  • Identificação clara: identificação de linhas por números, não cores. Acabar com designações como “Linha Laranja”. A presença do destino no painel do autocarro transmite confiança às pessoas e atrai outros, pois percepcionam a oferta e permite logo obter informações. Associar número a zonas, facilitando a vida ao passageiro. Números são mais fáceis de decorar do que cores (num contexto onde existem mais de 5 linhas). Exemplo abaixo deste ponto:

A frota do futuro

Atualmente, o TOMA dispõe apenas de 4 autocarros. Em contraste, cidades como Évora, Vila Real ou Covilhã operam com mais de 20. É necessário um reforço massivo, com veículos modernos, sustentáveis e adaptados à cidade: baixas emissões (elétricos, gás natural ou hidrogénio), equipados com Wi-Fi, USB, e outras tecnologias de nova geração como INSAT – NSS (Sistema a bordo com aviso de próxima paragem).

Enquanto outras cidades recorrem a fundos comunitários para financiar milhões em autocarros elétricos novos, nas Caldas recorre-se a veículos em segunda mão. A indústria nacional, possui exemplos de excelência como a CaetanoBus (Modelo CityGold), é uma oportunidade para ter qualidade e apoiar a economia local, afinal este autocarro é desenhado por uma empresa de Óbidos.

Nova geração de autocarros da CaetanoBus. Ainda nenhum autocarro em circulação da nova geração, porém já com encomendas da STCP, Carris e TUB.

A dimensão dos autocarros

A ideia de que os autocarros atuais são demasiado grandes não corresponde à realidade. Os anteriores tinham as mesmas dificuldades de circulação, pois a largura é a mesma, e esses problemas são gerados por falta de civismo de terceiros, não por culpa do autocarro. Com “tanto choro” dá a entender que é preferível prevalecer comportamentos desordeiros do que dar condições seguras aos autocarros. Em vez de sermos favoráveis ao desenvolvimento, somos contra. Mas mais grave ainda é, se for um carro de bombeiros, muito mais largo, como será? Somos uma cidade, capital de uma região, não uma aldeia ou vila para andarmos com carrinhas a imitarem autocarros.

Os “novos” veículos são uma melhoria clara: têm rampa para cadeiras de rodas, espaço para carrinhos e bicicletas, mais lugares sentados e capacidade para passageiros em pé. Numa cidade que precisa de pensar no futuro e aumentar o número de utilizadores, autocarros de 10 a 12 metros são o mínimo necessário. Se com um número tão desproporcional de passageiros à nossa cidade, os “novos” autocarros esgotam os lugares sentados e obrigam passageiros a circularem a pé, como será no dia que existir uma boa rede? Atualmente são 200 mil passageiros. Cidades como Vila Real, com metade dos habitantes, transporta 2 milhões de passageiros. Temos que nos preparar para esse futuro, e estar prontos milhões de passageiros anuais.
Só em em rotas exclusivas ao centro histórico, na passagem a locais como o Hospital Termal, Museu da Cidade, Igreja do Espírito Santo, onde aí as ruas sim, são muito estreitas, faria sentido apostar em miniautocarros, como os Karsan E-Jest já usados noutras cidades.

Estacionamento periférico e ordenamento

As Caldas têm um número invulgarmente alto de parques subterrâneos em comparação com outras cidades, e mesmo assim os problemas de estacionamento não param de aumentar. Não faz sentido insistir no mesmo erro.

A solução passa por criar parques periféricos ligados ao centro por linhas do TOMA, reduzir gradualmente o estacionamento no centro e alargar passeios. É necessário gerir bem os recursos, utilizar o dinheiro e o solo com raciocínio, já que o TOMA pode ser financiado quase na totalidade por fundos. Além disso, reduzimos o estacionamento abusivo e desordeiro, reduzimos a procura pelos parques de estacionamento, reduzimos a quantidade de carros a circular, mais fluidez no trânsito e menos acidentes e atropelamentos, ou seja, menos sinistralidade.

Como o TOMA pode competir com o carro

Um sistema rápido, frequente e fiável poupa tempo e dinheiro. Um utilizador que deixe o carro em casa não gasta combustível, não paga estacionamento, evita o stress da exposição ao trânsito e têm uma paragem à porta do comércio que procura. 

O argumento “mas ainda tenho de esperar pelo autocarro” só é válido com o sistema atual. Numa rede moderna, com tecnologia em tempo real, cada pessoa sabe exatamente quanto falta para a chegada. A incerteza desaparece, e a opção pelo transporte torna-se lógica.

Atualmente, muitas pessoas que vivem a apenas 20 ou 30 minutos a pé do centro acabam por usar o carro para distâncias curtas. Isso ocupa os parques subterrâneos com quem até poderia ir a pé ou de transporte, deixando quem vem de fora, e não tem alternativa, sem opção de estacionamento. Se houvesse uma rede de TOMA eficaz, estas viagens inúteis seriam evitadas: os moradores da cidade optariam pelo transporte, libertando lugares para quem realmente precisa, e os visitantes poderiam recorrer a parques periféricos ligados ao centro.

Paragens e tecnologia em tempo real

Um transporte urbano não é apenas comprar o material circulante, é dotá-lo com tecnologia e informação que transmite confiança aos usuários e traz outros a usufruir da rede, tanto em aplicações e paragens. As futuras paragens deverão cumprir estes requisitos:

  • Paragens com rotas, horários agendados visíveis e postalete (objeto no canto superior direito) com as rotas que ali passam. (Informação Estática).
  • Painéis de tempo real nas zonas mais centrais.
  • Integração no Google Maps, Apple Maps e Moovit.

Tempo Real no Google Maps, Apple Maps, Moovit porquê? Horários agendados não funcionam, pois, é raro um autocarro circular a horas. Quando as frequências não são atrativas, o desconhecimento apela ao não uso, as pessoas não sabem se o autocarro já passou, se vale a pena esperar, se faltam 3 ou 40 minutos. Muitos sabem que a pé chegam mais rápido, independentemente do tempo. 40 minutos numa cidade com as Caldas é demasiado. Assim, reservamos o TOMA aqueles que não têm mesmo outra solução.

Institucionalização e imagem

O TOMA deve ter identidade própria. Um site próprio com informações, horários e avisos, e ainda uma página própria nas redes sociais. Não pode permanecer camuflado com a marca da operadora, sem comunicação oficial nem divulgação adequada. Um transporte urbano precisa de marketing, presença em escolas e eventos, campanhas de sensibilização e informação acessível. É assim que se cria cultura de transportes, numa cidade onde essa cultura é tão ausente.

O TOMA não é apenas um meio de transporte, é o principal mecanismo de mobilidade urbana. Continuar com o sistema atual significa prolongar congestionamentos, estacionamento caótico, perda de comércio e falta de acessibilidade.

Uma rede moderna, com mais linhas, mais frota, horários alargados, tecnologia em tempo real e estacionamento periférico, não é um luxo, é uma urgência. É investimento que melhora a vida de quem usa o transporte, de quem anda de carro, de quem vive na cidade e até das freguesias rurais, que beneficiariam da libertação de recursos da Rodoviária.

É hora de transformar o TOMA num sistema à altura da cidade que somos. 

Autor

  • Natural da cidade das Caldas da Rainha, estudante da licenciatura em Antropologia no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.


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