Figura 1 – Vista aérea da Rotunda dos Arneiros

A Rotunda dos Arneiros (RdA) é uma das mais movimentadas da cidade das Caldas da Rainha, onde o transito provoca bastantes engarrafamentos, agravados significativamente nas horas de ponta, este artigo não pretende apresentar uma solução definitiva para esta rotunda, mas sim ser o ponto de partida para uma discussão aberta e sem qualquer constrangimento das soluções a propor. Para eliminar todas as soluções pré-estabelecidas, o ponto de partida para esta discussão é estruturalmente radical, pois propõe mesmo a eliminação da rotunda.

A rotunda que existe

Inserida na circular das Caldas da Rainha, a RdA é a confluência de 5 vias, 2 avenidas com 2 faixas de rodagem em cada sentido e 3 ruas com uma faixa de rodagem em cada sentido, ou seja tem 7 faixas de rodagem a entrar na rotunda e outras 7 a sair da rotunda. A sua dimensão é pequena, tendo em consideração que é uma rotunda com 5 vias e 14 faixas de rodagem que entram e saem da mesma e com 2 faixas de rodagem no anel de circulação da rotunda. O desenho da rotunda está geometricamente desequilibrado, potenciando zonas de elevado grau de sinistralidade rodoviária. A RdA está rodeada de prédios, não permitindo o seu alargamento.

Figura 2 – Circulação original do transito

Antes da alteração provisória, de eliminação da entrada na Rua D.João II (RDJII), feita em Dezembro de 2023 e sem querer entrar em questões demasiado técnicas, na figura 2 à direita podemos ver, a amarelo, as faixas de rodagem de circulação na rotunda, onde estão assinalados os pontos de conflito de circulação, que são os locais de maior grau de sinistralidade rodoviária. A laranja estão os 23 pontos de conflito convergentes, a azul estão os 12 pontos de conflito divergentes e a vermelho estão, os mais preocupantes, 4 pontos de conflito de cruzamento, no total são 39 pontos de conflito. Com um número tão grande de pontos de conflito que são proporcionais, a grosso modo, ao número de interceções das várias faixas de rodagem, o resultado é o inevitável congestionamento do tráfego, deixando a rotunda de servir para a sua principal finalidade que é permitir o escoamento fluido do transito automóvel. De referir que os 4 pontos de conflito de cruzamento, são particularmente perigosos e de elevado grau de sinistralidade, são causados pelo mau desenho da rotunda que coloca um cruzamento “dentro” da circulação da própria rotunda, resultante da confluência da entrada da Av. Adelino Mamede de Oliveira (AvAMO), da RDJII e da própria rotunda.

Com a eliminação provisória da entrada na RDJII, foram também eliminados os pontos de conflito de cruzamento (ver figura 3), claramente os pontos de conflito mais perigosos, o que baixou o grau de sinistralidade, mas não veio contribuir significativamente para o melhoramento do fluxo do transito. Os pontos de conflito baixaram de 39 para 31, mas continuam a ser demasiados para a dimensão da rotunda.

Figura 3 – Circulação atual

Proposta de eliminação da rotunda

Se a RdA é pequena para as 14 faixas de rodagem, está geometricamente desequilibrada e não tem espaço para grandes alterações como seria o caso do alargamento da ilha central, então possivelmente não podemos ter uma rotunda na RdA. Passar para um cruzamento, mesmo com semáforos, é impensável pois provocaria ainda mais constrangimentos ao fluxo do transito, então qual é a solução? É eliminar a RdA, mas como? Não é propriamente fácil de explicar, mas vamos por fases.

Figura 4 – proposta de circulação com a eliminação da rotunda

Esta é uma proposta de uma solução que altera estruturalmente o conceito da RdA e melhora considerávelmente o fluxo de transito na zona. A ilha central da RdA fica onde está com a sua fonte luminosa, mas deixa de ser possível circular em toda a sua volta, passa a existir apenas circulação nos dois sentidos da Av. Eng. Luis Paiva e Sousa (AvELPS) e a AvAMO (ver figura 4), no sentido AvAMO – RdA a faixa da direita fica em exclusivo para entrar na RDJII e a faixa da esquerda fica em exclusivo para atravessar para a AvELPS. A RDJII fica com uma entrada exclusiva na AvELPV sem ter qualquer ponto de conflito com o transito que vem da AvAMO.

De modo idêntico, no sentido AvELPS – RdA a faixa da direita fica em exclusivo para entrar na Rua Manuel Mafra (RMM) ou na Rua Prof. Manuel José António (RPMJA) e a faixa da esquerda fica em exclusivo para atravessar para a AvAMO. A RMM e a RPMJA ficam com uma faixa para entrada na AvAMO.

Esta solução reduz os pontos de conflito de convergência para 2 e os de divergência também para 2. Ou seja, dos 39 pontos de conflito iniciais, agora só temos 4. Com esta nova configuração da RdA, que já não é rotunda, teremos claramente e sem quaisquer dúvidas um fluxo de transito muito mais fluído. O transito da AvELPS para a AvAMO e vice-versa passa a fazer-se sem qualquer constrangimento fazendo desaparecer os habituais engarrafamentos destas avenidas à entrada da rotunda. O transito que vem da RDJII entra numa faixa exclusiva para a AvELPS o que leva certamente a desaparecerem os engarrafamentos nesta rua à entrada da rotunda. Claramente o fluxo de transito vai passar a ser muito mais fluído com o desaparecimento dos engarrafamentos, mesmo nas horas de ponta.

Ficam no entanto duas perguntas no ar, como é que o transito que vem da AvAMO ou da RDJII consegue sair pela RMM ou pela RPMJA ou mesmo pela AvAMO? Como é que o transito que vem da AvELPS e das RMM e RPMJA, consegue sair para a RDJII ou mesmo para a AvELPS?

Figura 5 – proposta de circulação completa

Respondendo a essas duas perguntas, mais ou menos a meio da AvELPS seria contruída uma zona de inversão de marcha (tipo rotunda, sem ser uma rotunda) que permite ao transito descendente inverter o sentido e subir a AvELPS (ver figura 5) tendo acesso à RMM, à RPMJA e à AvAMO. Esta solução não provoca condicionamentos ao fluxo de transito nem aumenta o grau de sinistralidade. A mesma solução não se pode fazer na AvAMO, por clara falta de espaço, pelo que o transito que vai da RdA para a AvAMO terá de fazer inversão de marcha na Rotunda da Expoeste para ter acesso à RDJII e à AvELPS.

Com a “extensão” da rotunda até à nova zona de inversão de marcha, todo o percurso apresentado na figura 5, tem apenas 5 pontos de conflito de convergência e outros 5 de divergência (10 no total), tendo em consideração todos os acessos secundários existentes à AvELPS. Esta proposta apresenta um número muito inferior de pontos de conflito, comparado com a circulação original, só na rotunda (39).

Existem 4 pontos que não foram tratados neste artigo, mas que são de especial importância para a alteração estrutural proposta:

1. a reorganização das passagens de peões, tendo especial atenção à localização das mesmas, à marcação no pavimento e à sua iluminação noturna;

2. a instalação de sinalização vertical informativa do “destino” das faixas de rodagem, complementada com a adequada pintura no pavimento;

3. a reestruturação dos acessos de veículos, bicicletas e peões à Escola Secundária Raul Proença e à Escola Básica do Bairro dos Arneiros.

4. a possível reorganização ou mesmo reestruturação da Rotunda da Expoeste e da Rotunda do CENCAL em consonância com as alterações da RdA.

Concluindo, esta proposta permitiria a eliminação quase total que qualquer constrangimento que possa provocar engarrafamentos de transito; a eliminação da grande maioria dos pontos de conflito tendo como consequência principal o aumento significativo da segurança rodoviária; a eliminação por completo de zonas de possível estacionamento automóvel, junto ou mesmo nas faixas de rodagem; e permitiria também o alargamento de algumas zonas pedonais com possibilidade de instalação de mobiliário urbano.

Aqui está o ponto de partida para a discussão e o debate sobre uma possível solução estruturante para o problema da Rotunda dos Arneiros. Que este ponto de partida sirva para se iniciar a discussão deste tema, junto da sociedade civil, dos munícipes e de todos aqueles que muitas ou poucas vezes têm de passar pela Rotunda dos Arneiros em horas de ponta. Não se pode deixar que alterações provisórias e meramente pontuais se tornem definitivas sem qualquer melhoria do fluxo de transito na zona.

Autor

  • Caldense de gema, nascido e criado na cidade das Caldas da Rainha. Com as suas raízes no comércio tradicional da cidade é atualmente sócio-gerente da Casa Fernandez (www.casafernandez.eu) fundada em 1935 e administrador da plataforma de informação técnica CarKeyNetwork (www.carkeynetwork.com). Entre 1995 e 2000 foi Presidente da Direção da ACCCRO.


6 comentários a “E se a Rotunda dos Arneiros deixasse de ser uma rotunda?”

  1. Avatar de Marina Silva
    Marina Silva

    Que confusão para quem não sabe o nome das ruas. Entao quem sobe a rua do cercal se quisesses voltar a descer tinha que ir dar a volta onde?

    1. Avatar de Amador Pedro Fernandes
      Amador Pedro Fernandes

      Marina Silva, obrigado pelo seu comentário. Uma das imagens do artigo tem as abreviaturas dos nomes das ruas, exatamente para quem não sabe o nome das ruas. Quem sobe do Cencal para a rotunda, se quiser voltar a descer tem de ir dar a volta à Rotunda da Expoeste.

  2. Avatar de José
    José

    Já sugeri semáforos, não é preciso inventar nada basta fazer como existe e funciona em muitas outras rotundas.

    1. Avatar de Amador Pedro Fernandes
      Amador Pedro Fernandes

      É uma sugestão, que deve ser estudada, mas deixe-me informá-lo do seguinte: a questão dos semáforos na Rotunda dos Arneiros, até pode funcionar, nas horas de ponto ou em picos de transito, mas fora dessas alturas só provocam paragens desnecessárias e novos engarrafamentos, não contribuindo em nada para a melhoria do fluxo do transito; por outro lados vários técnicos que estudam as possibilidades de instalação de semáforos, foram todos unanimes em dizer que a Rotunda dos Arneiros é pequena demais para serem instalados semáforos.

  3. Avatar de Rui Vieira
    Rui Vieira

    O conflito na RdA deve-se á forma de abordagem da mesma.
    Antes das alterações de acesso a rotundas o trânsito fluía agora são filas longas.
    Não faz sentido que a faixa da esquerda que dá entrada na rotunda seja para 3 saídas e a faixa direita seja só para uma saída.

    1. Avatar de Amador Pedro Fernandes
      Amador Pedro Fernandes

      Rui Vieira, esse é precisamente um dos problemas, imposto pelas regras do Código da Estrada em vigor. Pela informação que tenho, não é possível contrariar essas regras, mesmo com sinalização adequada. No entanto essa é sem dúvida uma questão a ser estudada e ponderada.

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