A Semana Europeia da Mobilidade é a altura ideal para fazer uma reflexão pessoal sobre o assunto da Mobilidade e perceber o que posso melhorar ou mudar nas minhas ações e rotinas de forma a adotar formas mais sustentáveis de deslocação, melhorar a minha saúde e estado de espírito, melhorar a minha vida familiar e contribuir para um território menos poluído em todos os aspetos e assim ter mais qualidade de vida e contribuir para uma melhor sociedade.

No nosso Concelho, a estratégia de Mobilidade é há várias décadas centrada nas deslocações em automóvel individual, com muito investimento a ser realizado na construção de soluções rodoviárias e pouco em outras. O desenho das vias das cidades apresenta quase sempre apenas dois tipos de cenários: um mais antigo, já com séculos, em que as vias são estreitas sem bermas ou passeios e que costumam estar no “centro” da cidade que eram para uso pedonal ou de transportes com animais e outro cenário em que as dinâmicas pensadas para os automóveis (aqui é preciso referir que muitas vezes foram pensadas nos anos 40, 50, 60, 70 do século passado em que o número e dimensão dos automóveis em nada tem a ver com a realidade de hoje) em que sendo mais largas muitas vezes não estão adaptadas a transportes coletivos ou tem margem para convivência em paralelo com outros meios de transporte. Acresce a esta realidade o facto de a construção realizada na cidade não ter privilegiado a existência de lugares de garagem em condições de utilização e quantidade adequada de forma a poder reduzir o estacionamento na vida pública, o que acaba por concorrer com a área de circulação. A realidade do Concelho de certa forma assim obriga dada a dispersão territorial das habitações e a centralização de serviços e ofertas de cultura e comerciais sendo que a ausência de transportes coletivos de utilidade e qualidade e as distâncias e orografia não serem muito favoráveis à realização de alguns tipo de deslocações em modos suaves – não é muito realista imaginar que alguém se possa deslocar diariamente de bicicleta, trotinete ou a pé de Santa Catarina ou do Landal para, por exemplo, trabalhar na Zona Industrial das Caldas da Rainha. 

Quer isto dizer que é impossível a implementação de sistemas de mobilidade assentes em modos suaves e transportes coletivos, que permitam reduzir o número de veículos que diariamente entram na cidade, reduzindo as deslocações individuais contribuindo para a melhoria do espaço público e qualidade de vida no concelho? Não só não é impossível como até nem é assim tão difícil. No entanto, há uma premissa que tem de ser verdadeira: a mudança de mentalidade e atitude de cada um de nós em relação à sua mobilidade e deslocações! 

Como contribuir para uma Mobilidade menos poluente, mais saudável e contribua para a melhoria do espaço público e aumento da qualidade de vida?

É importante nunca perder a noção de que a mudança começa em mim! Se adotarmos pequenas alterações nos nossos hábitos diários, ou até apenas ocasionalmente, podemos começar a contribuir de forma decisiva para a mudança mais global. 

  • Usar menos o carro e mais outros meios de transporte! Parece tão óbvio quanto impossível. O carro, para muitos de nós, assume um papel fundamental na nossa vida. É o que nos permite deslocar de casa para o trabalho, levar os filhos à escola, ir ao médico, ir às compras e poder estar onde se quer quando se quer. Sendo que a possibilidade de conduzir é um dos últimos grandes rituais de transição para a vida adulta. É difícil imaginar a nossa vida sem carro. Mas há muitos benefícios em usar menos o carro. Menos poluição, menos tempo perdido à procura de estacionamento, mais liberdade para usufruir das deslocações, mais poupanças, mais saude, etc. E isto pode apenas implicar deixar o carro mais longe do local de trabalho, utilizar um transporte público uma ou duas vezes por semana, usar sistemas mistos com carro e trotinete, por exemplo, usar a bicicleta ou ir a pé em pequenas deslocações, fazer o dia da semana sem carro, partilhar carro principalmente em deslocações regulares e isto são apenas alguns exemplos de pequenas ou grandes mudanças que podemos fazer individualmente!
  • Mudar comportamentos e escolhas! Pequenas alterações como optar por realizar mais compras no comércio tradicional e de proximidade, reduzir o consumo por serviço de entregas e ter uma atitude mais consciente de onde vem os produtos que adquirimos pode ter um impacto muito grande na quantidade de deslocações realizadas. Outra mudança possível é a participação em grupos e ações que promovam a mobilidade suave e hábitos de vida mais saudáveis. Eventos como o KidiCaldas, Caminhadas e Passeios de Bicicleta, Dia Europeu sem carros e Semana da Mobilidade são muito importantes para construir uma sociedade mais consciente das suas escolhas e mais conhecedora das suas opções.
  • Exigir mais segurança e melhores condições! Através da utilização e criação de necessidade torna-se legítimo e necessário reivindicar melhores serviços e infra-estruturas, mais segurança e mais opções de serviços que promovam a melhoria da Mobilidade. Mais ciclovias, mais ruas pedonais, mais vias compartilhadas com prioridade ao peão e ciclista, mais estacionamento periférico e seguro, mais autocarros das freguesias para a cidade, mais e melhor sinalização rodoviária, mais acções de sensibilização, melhores soluções para o transporte escolar, melhores condições para a utilização de meios suaves pelas crianças e jovens das escolas, implementação de programas de comboios de bicicletas, mais estacionamentos para bicicletas, mais soluções de bicicletas partilhadas, soluções de transportes on demand municipais, criação de serviços online e descentralização de serviços de forma a reduzir deslocações entre tantas outras soluções e necessidades que existem para que se possa tratar da mobilidade com a seriedade que merece. Participar em Assembleias de Freguesia, Assembleias Municipais e outras reuniões, em conjunto com outros interessados, fará seguramente a diferença e tornará possível a mudança de comportamentos dos poderes políticos ajudando assim a criar soluções mais adequadas e realistas que melhorem a qualidade do espaço público e a qualidade de vida no concelho.

É possível mudar e já existem várias soluções que permitem tomar decisões de forma consciente e informada, seja através da adesão ao passe M e assim usufruir gratuitamente de transportes públicos em todo o Oeste, seja pelo apoio do Fundo Ambiental à aquisição de Bicicletas Elétricas ou não, ou pela multiplicidade de experiências que vão sendo feitas em soluções de micrologística, mobilidade suave, transportes on demand e com Planos de Mobilidade Urbana Sustentável entre outros é de facto possível ser mais do que um mero espectador e consumidor das questões de Mobilidade no nosso território sendo que podemos e devemos ser verdadeiros atores e influenciadores do nosso meio contribuindo de forma decisiva para a melhoria das condições e aumento da participação de todos ganhando um melhor espaço público e uma qualidade de vida melhorada para todas as gerações!

Autor

  • Nascido no Canadá, no entanto desde que tem memória vive em Caldas da Rainha, onde cresceu e formou família. Trabalhou em Comércio  e em Turismo em projetos de família e individuais. Desde muito jovem que esteve sempre ligado à comunidade através do Escutismo participando e organizando diversas atividades de dinâmica social e ambiental.


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