
Longe vão os tempos em que nas ruas da cidade das Caldas da Rainha, fervilhava o movimento das pessoas, quer para passear, quer para fazerem as suas compras nas praças e no comércio da cidade. Os mais velhos, lembrar-se-ão com certeza da azáfama diária da praça da fruta e da praça do peixe (quando ainda funcionava na Praça 5 de Outubro) e do movimento quase permanente de pessoas na rua, no entra e sai das mais variadas lojas do comércio, dito tradicional, no centro da nossa cidade. Nessa altura, Caldas da Rainha era uma cidade pujante, moderna, atrativa que se destacava de todas as outras do Oeste e arredores, com um comércio forte, obviamente alimentado por clientes que vinham das mais variadas cidades, vilas e aldeias da zona. O comércio das Caldas era conhecido, respeitado, afamado e era sem dúvida o mais importante núcleo comercial do triângulo Leiria – Santarém – Torres Vedras, reconhecido por todos aqueles que nos visitavam.
Mas nem só do comércio vivia a cidade, o Hospital Termal com as suas terapêuticas sobejamente conhecidas pelo país inteiro, trazia para a cidade um fluxo de aquistas e seus acompanhantes que obviamente ajudava a alimentar o movimento na cidade. Dizia-se em vários círculos, que as Caldas era a cidade das duas Câmaras Municipais, tal não era, e é, a importância do Centro Hospitalar, que compete ombro a ombro com a verdadeira Câmara Municipal, quer em número de trabalhadores, quer em património imobiliário. Não nos podemos esquecer da importância, para todos os setores económicos, dos funcionários diretos e indiretos que trabalham com ou para o Centro Hospitalar.
A disposição geográfica das duas praças, da fruta e do peixe, com o comércio que as envolvia e o comércio de excelência nas ruas que ligavam as duas praças, fazia com que as Caldas fosse um verdadeiro centro comercial a céu aberto, onde se podia comprar tudo e mais alguma coisa. Os empresários, cada um à sua maneira, souberam investir, o que permitiu engrandecer e modernizar, ano após ano, o comércio e consequentemente a cidade e deste modo torná-la num incontornável caso de sucesso do comércio de cidade.
Por outro lado, a indústria, fundamentalmente a indústria cerâmica, criava postos de trabalho, movimentava a economia quer a nível interno, quer ao nível das exportações, em suma criava riqueza não só a quem trabalhava diretamente com a indústria, mas também nos outros setores económicos da cidade e do concelho.
O turismo, mais concretamente, as conhecidas excursões durante os fins de semana, traziam para a cidade visitantes dos quatro cantos do país, que se deliciavam com a nossa doçaria e gastronomia, sem esquecer os “souvenires”, sendo mais uma vez um importante contributo para a economia local.
A instalação da ESAD, em muito contribuiu para o modo como as Caldas era vista de fora, ou seja, passou a ser uma cidade com ensino superior/universitário, o que faz toda a diferença. Trouxe para as Caldas professores das mais diversas áreas, mas todos de um nível (superior/universitário) que não existia na cidade até então. Trouxe também um numero, crescente de ano para ano, de alunos dos quatro cantos do país, todos com uma característica comum: a criatividade. Estes novos professores e alunos, que a pouco e pouco se tornaram novos caldenses, acabaram muitos deles, por criar as suas famílias nas Caldas, contribuíram ativamente para o aumento do movimento na cidade e mexeram com quase todos os setores da economia caldense. Principalmente os alunos trouxeram uma lufada de juventude para a cidade que ajudou a mudar o estereotipo do caldense.
Por fim, não nos podemos esquecer que o aumento da população residente na cidade e no concelho, teve um equivalente aumento no setor imobiliário, quer na construção de novas habitações, quer no mercado do arrendamento, que mais uma vez também contribuiu para o movimento e o negócio do setor comercial.
Hoje (2025) e olhando para trás, só podemos concluir que perdemos tudo ou quase tudo. Sem preocupação com a ordem cronológica, perdemos a praça do peixe, ou melhor foi transferida para um local com mais condições e mais dignidade, sem dúvida, mas o que é que lhe aconteceu com o passar dos anos, reduziu-se, definhou e hoje nem sequer merece o nome de praça. Para aqueles que acham que a praça do peixe em nada contribuía para a cidade, deixem-me dizer-lhe que (quando a praça do peixe funcionava na Praça 5 de Outubro), a maioria dos restaurantes de Peniche, especialistas em caldeirada, vinham fazer as compras de peixe na praça da Caldas, porque era onde encontravam a maior variedade e qualidade de peixe para confecionarem as suas caldeiradas, em poucas palavras as famosas caldeiradas de Peniche eram cozinhadas com peixe da praça das Caldas.
Estamos prestes a perder a praça da fruta, os mais atentos sabem que a praça só funciona na sua plenitude um ou dois dias por semana, em todos os outros dias são mais os lugares de vendedores vazios do que os ocupados. Ao longo dos anos nunca se conseguiu discutir e debater, com isenção e independência, o futuro da praça da fruta. Foi obrigada a permanecer onde está (com uma interrupção durante a pandemia em que funcionou na Expoeste), sem qualquer tipo de melhoramento, quer para quem vende, quer para quem compra ou simplesmente visita, ou mesmo para o transito e o estacionamento que continua igual ao que sempre foi. Por isso podemo-nos ir preparando, para num futuro próximo, perdermos a praça da fruta, tal como a conhecemos, ou deixará de ser diária ou definhará até desaparecer e passar a ser apenas uma memória.
Usando uma nomenclatura mais moderna a praça da fruta e a praça do peixe, eram realmente “lojas ancora” para o centro de comércio das Caldas, as quais eram responsáveis por provocar um notável fluxo de clientes, visto representarem marcas amplamente reconhecidas, dentro e fora de portas: “Praça da Fruta das Caldas” e “Praça do Peixe das Caldas”. A relevância destas praças na captação de visitantes e consequentemente de clientes, era incontestável, pois captavam uma grande diversidade de consumidores e contribuíam para o movimento da cidade e claro para aumento dos clientes do comércio das Caldas.
Perdemos o Hospital Termal, graças em primeiro lugar à bactéria Legionella e depois graças a um lentíssimo desenrolar de aplicação de panaceias, que levaram os aquistas para outras termas, provocando o seu desaparecimento das Caldas. Poderão alguns dizer, mas o Termal está outra vez a funcionar, é verdade, mas a quantidade de aquistas de hoje é uma ínfima parte da quantidade de aquistas de outros tempos. Outros poderão ainda dizer, mas vem aí um novo balneário, mas por enquanto é só uma ideia que está no papel e que é desconhecida da quase totalidade dos caldenses. Se tivermos de esperar aquilo que é habitual esperar em Portugal para que as ideias saiam do papel e se concretizem, então metade dos caldenses de hoje já terão mudado, a sua residência permanente, para o “jardim das tabuletas”.
As excursões, por alguma razão que desconheço, deixaram praticamente de parar nas Caldas, com a perda de todo o negócio à volta da doçaria, da gastronomia e do comércio. Curiosamente, as excursões continuam a parar, em força, em Óbidos e em Alcobaça. Terá sido a falta de locais de paragem e/ou de estacionamento exclusivo para autocarros turísticos, na cidade ou na sua periferia, que provocou este desaparecimento?
Falando ainda de turismo, a hotelaria há décadas que é manifestamente insuficiente para as necessidades normais da cidade e mesmo muito insuficiente em alturas de pico, provocadas por eventos desportivos ou outros. O encerramento do Caldas Internacional Hotel, no inicio deste ano ainda veio piorar mais esta situação. A título de exemplo, o torneio de futebol Footmania Oeste, que há vários anos se realiza nas Caldas, está a ponderar mudar a localização do torneio, por falta de alojamento para os participantes.
A inexistência de um parque, ou até de uma zona, para estacionamento e pernoita de auto-caravanas, também exclui as Caldas das rotas e dos locais de visita dos auto-caravanistas. Se para alguns este é um tipo de turismo secundário e dispensável, desenganem-se pois é um tipo de turismo em crescimento, que já não pode simplesmente ser ignorado. Tínhamos um parque de campismo quase no centro da cidade, que encerrou, sem nunca se ter equacionado a sua transformação para um parque de caravanismo e auto-caravanismo. Deste modo as auto-caravanas fugiram para o local do antigo parque de campismo da Foz do Arelho, onde durante os fins de semana as podemos ver às dezenas ou mesmo às centenas.
E perdemos também a força da indústria cerâmica, hoje não é sequer comparável com o que era há 30 anos atrás. Bem mas ficámos com as Faianças Bordallo Pinheiro, é verdade, mas perdemos a Secla, as Faianças Subtil e tantas outras fábricas mais pequenas, mas que contribuíam para a força do sector da cerâmica e da indústria do concelho.
O comércio tradicional perdeu o combate com as grandes superfícies, ao ser permitida a construção e instalação de grandes superfícies na periferia da cidade. O comércio da cidade sofreu um rude golpe, provocando o desaparecimento de uma quantidade significativa de lojas e levando mesmo ao desaparecimento ou quase extinção de alguns setores do comércio. As grandes superfícies que ao longo dos anos se foram multiplicando como cogumelos, conseguiram desestruturar o centro nevrálgico das Caldas. O crescimento das grandes superfícies e de algum comércio das cidades e vilas à nossa volta, também leva a que seja menos necessário vir às Caldas fazer compras. O que era diferenciador no comércio das Caldas, deixou de o ser, o que provocou uma acentuada perda de clientes para o comércio da cidade.
Estamos, atualmente, na corda bamba, entre perder o Centro Hospitalar ou ter um novo Hospital, se bem que neste momento a balança está mais inclinada para a perda do Hospital do que para o novo Hospital nas Caldas. Não me parece que esta situação seja resolvida a breve trecho, ainda muita água vai correr por baixo das pontes até que seja conhecida uma decisão definitiva sobre o assunto e muito mais água vai correr até termos um novo Hospital a funcionar nas Caldas ou noutro concelho do Oeste. Toda esta incerteza é quase que uma perda, pois só cria instabilidade nos agentes económicos investidores que ficam sem saber qual o posicionamento e o interesse das Caldas para os seus projetos e investimentos.
E o que foi feito para contrariar todas as perdas atrás descritas? Será o tema da 2ª parte.
Pode encontrar a 2ª parte desta crónica AQUI
Pode encontrar a 3ª parte desta crónica AQUI
Deixe um comentário