Mas ainda vamos a tempo de fazer alguma coisa, para inverter a tendência das últimas décadas? Claro que vamos e com certeza que iremos conseguir. Mas para isso é preciso, em primeiro lugar, percebermos que o tempo e os velhos hábitos não voltam ao que eram no passado. Depois temos de nos livrar das ideias dos muitos Velhos do Restelo caldenses e consciencializarmo-nos que não resolve nada tentarmos voltar ao passado, ou tentarmos implementar soluções do passado, o que temos de fazer é encontrar soluções novas, modernas, criativas e inovadoras, adaptadas à nossa realidade, depois temos ainda de deixar para trás o medo da mudança, só com mudanças é que a sociedade chegou onde está hoje, sem mudanças estávamos todos ainda na Idade da Pedra. De um modo mais coletivo, os caldenses e as suas instituições, públicas e privadas, têm que mostrar que querem uma cidade melhor, moderna e viva e que é preciso agarrar nos problemas com a intenção de os resolver e não ficar à espera que apareça alguém, sabe-se-lá de onde, para os resolver. Os movimentos políticos e os partidos têm de se preocupar com a cidade e não consigo próprios. Os executivos presentes e futuros da CMCR precisam de ter coragem política, ambição e visão para o futuro, para fazerem as mudanças necessárias, para voltarmos a ter uma cidade com letra maiúscula. Por fim, não podemos só pensar em resolver o presente, temos de pensar qual o futuro que queremos para as Caldas e construir no presente o futuro das Caldas.

Para aqueles que podem ainda estar a pensar que o comércio da cidade não é assim tão importante para a vida da cidade, partilho apenas estes dados: em 2022 dos 21.254 empregados nas Caldas da Rainha, 43,7% trabalhavam no comércio (comércio, serviços às empresas, restauração e turismo), ou seja o comércio disponibiliza quase metade dos postos de trabalho do concelho, é sem qualquer dúvida o maior empregador das Caldas. Noutra perspetiva, o principal motivo de visita às Caldas da Rainha é em 1º lugar as praias e a natureza com 29,9% e em 2º ex-aequo com 15,2% o comércio local e os eventos culturais. Mais uma vez o comércio demonstra o seu importante peso na economia das Caldas. (nota B)

Aquilo que os caldenses precisam é de serem ativos, protestativos e incisivos naquilo que querem para a nossa cidade. Não podemos continuar no marasmo dos últimos anos e ficar à espera que os outros resolvam o problema da nossa cidade. Enumerar tudo aquilo que se pode fazer para inverter o rumo da atual situação da cidade, não caberia nesta crónica, ou melhor transformaria esta crónica num livro. Assim, vamos enumerar quais as ações que se podem desenvolver sobre as principais questões.

Temos um concelho, que sempre viveu em volta da sua cidade, que sempre foi o polo agregador de todo o concelho, quando se fala nas Caldas da Rainha, fala-se na cidade e em todo o seu potencial humano, comercial, industrial, urbanístico e turístico. De uma forma lata, são estes 5 potenciais que têm de ser trabalhados, requalificados e modernizados para voltarmos a ter a cidade que queremos e que merecemos.

Âncoras de desenvolvimento estratégico da cidade das Caldas da Rainha

Plano estratégico de desenvolvimento para a cidade e equipa de acompanhamento. A importância e complexidade da vida de uma cidade, com todas as pressões internas e externas sobre o seu funcionamento, obrigam a um acompanhamento permanente da mesma, no sentido de encontrar soluções para os novos problemas que surgem todos os dias. Qualquer entidade que tenha a responsabilidade de gerir uma cidade, por mais pequena que seja, tem de alocar uma equipa permanente para essa gestão. Mesmo que os elementos dessa equipa, sejam todos formados em urbanismo, transito, economia ou outros tantos saberes, o trabalho da equipa nunca será relevante e útil, se não existir um plano para a cidade, cobrindo todos os aspetos fundamentais do funcionamento e da vida da mesma, para o presente e para o futuro. É de capital importância a elaboração de um Plano Estratégico de Desenvolvimento para a Cidade e a sua imediata implementação.

Conhecer outras cidades é fundamental, não só em Portugal mas também no estrangeiro, visitar e estudar outras realidades com sucesso, perceber como funcionam outras cidades, que são hoje reconhecidas como cidades vivas, é crucial para colher ideias e perceber como resolveram problemas semelhantes aos nossos. Temos de saber aprender com a experiência dos outros, o que se pode fazer de bem e de mal, para transportarmos para as Caldas, aquilo que funciona bem e que potencia a nossa cidade. Braga e Pontevedra são dois exemplos incontornáveis de cidades modernas e vivas, a visitar e a estudar sem qualquer dúvida.

Reorganizar e requalificar a mobilidade urbana da cidade numa ótica de mobilidade sustentável é fundamental para devolver a cidade às pessoas e retirar os carros e o transito automóvel do centro da cidade. O Executivo da CMCR tem de deixar-se de desculpas e começar a aplicar urgentemente o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Município das Caldas da Rainha, aprovado em 2021. Assim que se iniciar a aplicação deste plano, vamos observar de imediato uma melhoria na qualidade de vida e vamos todos perceber que finalmente se está a fazer alguma coisa pela cidade. Outros dos aspetos que tem que ser revisto são os trajetos e os horários das linhas do TOMA, imprescindível para ajudar a melhorar a mobilidade urbana sustentável.

Lutar incansavelmente pela localização do novo Hospital nas Caldas. Aquilo que se tem feito até agora tem sido claramente insuficiente. É preciso constituir um grupo permanente de acompanhamento deste assunto, constituído pelas forças vivas da cidade, de modo a estarmos sempre em cima dos acontecimentos e a tomarmos atempadamente e sempre que necessário, medidas em prol da defesa e luta pela localização do novo Hospital nas Caldas. Este grupo tem de informar/comunicar permanentemente com a população, no sentido, de se congregar todos nesta luta.

As Caldas é a capital do Oeste, mas tem de mostrar que é mesmo a capital do Oeste, não pode ser só uma questão administrativa. As Caldas tem capacidade para ocupar o lugar de capital do Oeste e de saber capitalizar todos os possíveis benefícios inerentes a esse lugar. Mas para isso temos de ser uma cidade forte, moderna e atrativa e deixar de uma vez por todos o marasmo em que temos vivido nos últimos anos. Para ganharmos esta identidade, também é preciso que se faça alguma coisa com o selo Caldas da Rainha – Cidade Criativa da UNESCO, não é só dizer-se que somos uma cidade criativa, é preciso mostrar com ações e com eventos que somos mesmo uma cidade criativa. E já agora basta sermos capital do Oeste, temos de deixar de querer ser capital de tudo e mais alguma coisa, pois esse tipo de atitude só provoca ruído e nos afasta daquilo que é importante.

A recuperação do edificado devoluto é crucial para mudar o aspeto da cidade e é a CMCR que tem de liderar esta questão, em primeiro lugar cuidar do edificado municipal que se encontra degradado e ao abandono e depois, pressionar os privados a fazerem o mesmo. E se necessário for, encontrar soluções e parcerias para ajudar os privados a recuperar os seus imóveis.

Resolver a transformação dos Pavilhões do Parque, se a Visa Beira continuar a brincar com o nosso património, então tem de se procurar, urgentemente, outro parceiro que dê garantias de fazer aquilo que a Visa Beira anda há 8 anos a prometer fazer. Não podemos mais permitir que o mais icónico edifício das Caldas continue a degradar-se.

Melhorar a limpeza e o aspeto geral da cidade. A CMCR tem de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que a cidade deixe de uma vez por todas de se mostrar desleixada, desorganizada e mal cuidada. Têm de existir olhos que saibam olhar para as ruas da cidade e verem o que está mal e o que pode ser reparado e melhorado. E depois têm de existir serviços da CMCR que façam essas reparações e melhoramentos. No aspeto da cidade, a PSP também tem um papel importante a desempenhar, como força de segurança que é, tem de acabar com o desleixo que existe no estacionamento e no transito, incluindo a circulação sem regras que vemos das bicicletas e trotinetas.

Aumentar a perceção de segurança na cidade, a CMCR e a PSP têm de criar condições, e se necessário exigir ao MAI parte dessas condições, para melhorar a segurança na cidade, seja por meio de mais policiamento ou por meio da instalação de câmeras de vigilância. É fundamental que todos se sintam seguros, uma maior segurança traz movimento para as ruas, que é o que dá vida à cidade.

O comércio da cidade e a ACCCRO. Os comerciantes, têm de perceber de uma vez por todas que o seu negócio depende do sucesso da cidade. Têm de sair da sua zona de conforto e lutar por uma cidade que lhes permita continuar com o seu negócio. Têm de ter a capacidade de união suficiente para serem uma das principais vozes da cidade, reformulando a amorfa ACCCRO e transformando-a numa verdadeira associação representativa do comércio da cidade. A ACCCRO tem de ser uma das responsáveis, em parceria com o Município, por uma forte promoção das Caldas na área de influencia Leiria – Santarém – Torres Vedras.

O desenvolvimento do Bairro Comercial (Digital) Caldas da Rainh@ é fundamental, bem como todo o apoio que possa ser dado pelas instituições e pelo próprio comércio. É uma plataforma inovadora que une o melhor do mundo físico e virtual, que faz a ponte entre comerciantes e consumidores e que tem todas as condições de levar o comércio local para outros patamares. Está em desenvolvimento, financiado pelo PRR, e vai ser fundamental para a promoção e afirmação do comércio da Caldas na era digital.

Termas do Gerês

Voltar a ter um Hospital Termal adaptado ao século XXI é de capital importância para as Caldas, é a identidade das Caldas, um novo balneário tem de ser projetado urgentemente e começado a construir sem mais atrasos. E se esse projeto já existe no tão falado, mas tão desconhecido Master Plan, então que a CMCR o divulgue publicamente e comece a trabalhar no lançamento da obra do novo balneário.

Criar uma estratégia de promoção da cidade com base no Marketing Urbano, para trazer às Caldas um turismo de qualidade, bem como um novo fluxo de consumidores para o comércio da cidade.

Sendo este ano um ano de eleições autárquicas, temos de mudar o paradigma, em lugar de esperarmos pelas propostas das várias forças políticas, temos sim que exigir a inclusão das ações atrás descritas nos vários programas das mesmas. Temos claramente de dizer: isto é o que é preciso fazer para voltarmos a ser uma cidade forte, vão fazer isto ou não, temos de exigir que estas ações estejam contempladas nos programas das várias forças políticas. Temos de perguntar às várias candidaturas qual é o plano que têm para a cidade e o que querem para a cidade. E não podemos aceitar respostas vagas sem conteúdo, temos de exigir que sejam apresentadas propostas concretas, bem estruturadas e perfeitamente definidas no tempo. Temos de fazer todas as perguntas necessárias sobre a nossa cidade, para obrigarmos as várias candidaturas a levarem a sério e a consciencializarem-se da necessidade de voltarmos a ter uma cidade com letra maiúscula, com lugar no mapa de Portugal e com a qualidade e o prestígio que as Caldas merecem.

Como caldenses, aquilo que não podemos mesmo é baixar os braços, ou deixar que a inação dos últimos anos se perpetue nas nossas atitudes, temos de insistir ou mesmo obrigar as entidades públicas a fazerem muito melhor do que têm feito. Temos de pressionar a comunicação social para fazer as perguntas certas aos governantes e brevemente aos candidatos autárquicos.

Se conseguirmos mudar o aspeto da nossa cidade, tornando-a uma cidade moderna, pujante e inovadora com elevada qualidade de vida e se soubermos promover essa cidade no exterior, então, além do capital humano que conseguirmos captar como clientes do nosso comércio, logo atrás virá o turismo e a indústria, fundamentais para fortalecer a economia da cidade.

Esta crónica foi propositadamente escrita em tom provocatório com o principal intuito de nos fazer pensar sobre a cidade das Caldas da Rainha e sobre aquilo que queremos para o futuro da cidade e consequentemente para o nosso próprio futuro. Não podemos continuar a deixar andar e não fazer nada, não podemos esperar que sejam os outros a resolver os problemas que nos afetam, temos de refletir, debater, discutir todos estes assuntos livremente, nunca nos esquecendo que a nossa liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Os caldenses têm de ser capazes de conseguir transformar a morte anunciada da cidade das Caldas da Rainha num futuro promissor.

Nota B: dados retirados dos seguintes documentos: Plano Estratégico de Desenvolvimento Económico das Caldas da Rainha 2035 e Estratégia e Plano de Ação da Marca Caldas da Rainha 25-30.

Pode encontrar a 1ª parte desta crónica AQUI

Pode encontrar a 2ª parte desta crónica AQUI

Autor

  • Caldense de gema, nascido e criado na cidade das Caldas da Rainha. Com as suas raízes no comércio tradicional da cidade é atualmente sócio-gerente da Casa Fernandez (www.casafernandez.eu) fundada em 1935 e administrador da plataforma de informação técnica CarKeyNetwork (www.carkeynetwork.com). Entre 1995 e 2000 foi Presidente da Direção da ACCCRO.


Um comentário a “CALDAS DA RAINHA – CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA? (parte 3)”

  1. Avatar de Ricardo Loureiro
    Ricardo Loureiro

    Excelente texto! Fico verdadeiramente motivado com a forma como abordas o futuro das Caldas da Rainha, não só a apontar problemas mas sobretudo a propor soluções concretas e realistas. Acho muito importante o teu apelo à ação coletiva – não podemos esperar que as soluções venham sempre de fora, temos de ser nós, caldenses, a arregaçar as mangas e a exigir mudança.

    Adorei a referência aos dados sobre o comércio e o turismo. Mostra bem como estes setores são vitais para a economia local e para a vida da cidade. Também achei muito pertinente a ideia de olhar para exemplos de sucesso noutras cidades, como Braga e Pontevedra. Por vezes, basta inspirarmo-nos no que funciona noutros sítios para encontrarmos as melhores soluções para as Caldas.

    O teu tom provocatório é inspirador. Faz-nos pensar e questionar se estamos a fazer o suficiente pela nossa cidade. Concordo plenamente que é preciso exigir mais dos nossos líderes, especialmente em ano de eleições. Não podemos aceitar promessas vagas – precisamos de propostas claras e de ações concretas.

    No fundo, este texto é um verdadeiro chamamento à ação. Faz-nos perceber que ainda vamos a tempo de inverter o rumo e de construir uma cidade melhor, mais moderna e mais viva. Parabéns pela crónica e por lançares o debate sobre o futuro das Caldas da Rainha. Espero que muitos leiam e se juntem a esta reflexão!

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