
Com tantas perdas, capazes de influenciar negativamente o funcionamento e o movimento da cidade, esperava-se que tivessem sido tomadas as medidas necessárias para minorar ao máximo essas perdas, mas será que em alguma altura houve um plano para combater as influencias negativas ou alguma vez foi tomada alguma medida com esse intuito? Não vou aqui falar de eventos de curta duração, que não contribuem, para de modo permanentemente aumentar o movimento da cidade.
Indiscutivelmente, o que dá movimento a uma cidade, são as pessoas quando andam a pé pelas suas ruas, entram e saem das lojas e usufruem das atividades que a própria cidade proporciona. Logo é muito mais agradável andar em ruas fechadas ao transito automóvel, do que andarmos preocupados com os carros e com o atravessar das ruas. Então para quem tem crianças pequenas é muitíssimo mais aprazível passear em ruas exclusivamente pedonais, do que naquelas que continuam a ter transito automóvel. A conversão para ruas e praças exclusivamente pedonais, também potencia a criação de esplanadas, o que torna ainda mais agradável passear e usufruir da cidade. Mesmo aos comerciantes, não lhes interessa que os carros passem à frente da sua loja, o que lhes interessa é que exista estacionamento em pontos estratégicos e que as pessoas possam andar livremente pela cidade e pelo comércio sem terem de se preocupar com o transito automóvel.
Ao longo dos últimos 40 ou 50 anos, fecharam-se várias ruas do centro da cidade ao transito automóvel, no entanto, sem ligação entre elas e sem qualquer plano estratégico de criar uma verdadeira zona pedonal. Inclusivamente tivemos uma importante artéria da cidade encerrada ao transito (Rua Heróis da Grande Guerra), que foi depois reaberta ao transito, com a condição de voltar a ser pedonal depois de terminadas as obras que na época existiam na cidade, mas que infelizmente, nunca mais foi pedonal, com a exceção dos Sábados de manhã, situação que não aquece nem arrefece. Para todos os efeitos continua a ser uma rua com transito automóvel.
Nos últimos 20 e poucos anos, construíram-se 3 importantes parques de estacionamento na cidade, a saber Praça 5 de Outubro, Centro Cultural e de Congressos e Praça 25 de Abril. Estes parques permitiram retirar algum estacionamento da superfície e estão junto ao centro da cidade, permitindo chegar a qualquer ponto do centro, a pé numa questão de minutos. Estes foram talvez os mais importantes investimentos feitos pela autarquia e que são sem dúvida pontos positivos para o aumento do movimento na cidade, no entanto, o estacionamento da Praça 25 de Abril, que foi acompanhado com uma reestruturação da Av. 1º de Maio e Av. da Independência Nacional, foi uma obra sem qualquer ambição, direi mais, foi uma obra sem visão para o futuro, que hipotecou a resolução do estacionamento no centro. Mas o que se poderia ter feito se houvesse ambição? Alargar o estacionamento subterrâneo às avenidas 1º de Maio e da Independência Nacional, o que permitiria facilmente quadruplicar o estacionamento que foi construído e ter-se-ia resolvido o problema do estacionamento no centro da cidade, por muitos anos. Em Fevereiro de 2024 a CMCR apresentou o estudo prévio de um novo parque de estacionamento, com capacidade aproximada de 600 lugares, para a zona da Rua 15 de Agosto, sendo o acesso ao centro da cidade feito pela nova ponte pedonal, junto à Estação da CP. Mas, mais de 1 ano após esta apresentação, não se iniciou a construção e nunca mais se ouviu falar do assunto.
Outra das obras sem qualquer ambição, foi a recuperação da Praça de República. Foi apenas uma obra cosmética, ficou tudo praticamente na mesma. Poder-se-ia ter feito um estacionamento subterrâneo na praça, com entradas desniveladas na Rua General Queirós e saída na Rua Dr. Leonel Sotto Mayor. Este tipo de solução teria permitido retirar o transito automóvel da referida praça, deixando toda a praça para as pessoas e criando condições para novas utilizações da praça. Mais uma vez, por falta de ambição e visão, foi desperdiçada uma oportunidade de melhorar e modernizar o centro da nossa cidade.
Na sessão de Câmara de 18/01/2021, foi apresentado e aprovado por unanimidade o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Município das Caldas da Rainha – Estratégia de Intervenção, encomendado pela Câmara a uma empresa especialista do setor. A aplicação deste plano permitiria mudar, literalmente, o aspeto da cidade, com a transformação de um núcleo de ruas em ruas exclusivamente pedonais, na reformulação do transito à volta desse núcleo e também no transito mais periférico da cidade. Mas o que a Câmara, na altura presidida por Tinta Ferreira fez, foi muito simplesmente guardar o plano dentro duma gaveta e fazer de conta que não existia. No final desse ano, uma nova Câmara toma posse, agora presidida por Vitor Marques, que quando encontra o dito plano dentro duma gaveta, tranca a gaveta e deita a chave fora. Este plano que custou algumas dezenas de milhares de euros, que foi aprovado por unanimidade na Câmara, está há quatro anos a ganhar pó dentro de uma gaveta, só pode estar votado ao abandono, será que existe alguma explicação para isto. Muito se poderia ter feito nestes quatro anos, mas nada se fez, são mais quatro anos de atraso a acrescentar aos outros tantos que já temos.
O fecho ao transito de algumas, poucas, ruas da cidade, a construção de 3 parques de estacionamento e algumas obras de cosmética, são perfeitamente insuficientes, para colmatar tudo o que a cidade perdeu.
Para aqueles que acham que a conversão de ruas com transito automóvel, para ruas pedonais é um erro, vou apresentar apenas um exemplo: a conhecida e famosa Times Square, em Nova York, foi alvo de um processo de conversão para zona pedonal, que se tornou um dos mais conhecidos no mundo. Iniciado em 2009, como projeto piloto, o encerramento desta importante via ao transito automóvel, provocou um aumento de 71% no volume de negócios das empresas situadas na Times Square, o que deixou claro que a conversão em zona pedonal deveria de se tornar definitiva. (nota A)

Noutra perspetiva, o edifício mais icónico das Caldas da Rainha é sem qualquer espécie de dúvida os Pavilhões do Parque, que se encontram há mais de 30 anos num estado de abandono e degradação simplesmente incompreensíveis. Há quanto tempo estamos à espera das obras para recuperação e reconversão dos Pavilhões em Hotel? Pelo menos há 8 anos. A espera é tanta que pelo caminho até houve um incêndio nos Pavilhões, mas nem mesmo assim o processo avança. Se a Visa Beira já não está interessada no negócio, então que se procure outro parceiro, ou vamos ficar eternamente à espera de uma obra que não começa e que seria sem dúvida um polo fundamental de promoção e divulgação das Caldas da Rainha. Basta imaginar a publicidade que qualquer proprietário de um hotel com estas dimensões, tem de fazer, a nível nacional e internacional, para garantir a viabilidade do seu negócio. A cidade só tem a ganhar com isso.
O que também diferencia uma cidade é o seu edificado e o seu próprio estado de conservação. Os imóveis podem ser mais ou menos bonitos, mais ou menos agradáveis, mas se estiverem cuidados e em bom estado de conservação é sem dúvida agradável aos olhos de quem se desloca pela cidade, seja a pé seja em qualquer meio de transporte. De um modo geral, o edificado da cidade não está muito mal, mas tem edifícios em zonas chaves que não se pode admitir estarem no estado deplorável em que estão. A principal entrada no centro da cidade, o Largo Conde de Fontalva (Rotunda da Rainha), tem vários edifícios públicos e privados devolutos há décadas e em mau estado de conservação, como por exemplo o edifício do Charuto, adquirido pela CMCR há vários anos, sem no entanto existir qualquer projeto para o mesmo, será que estão há espera que caia? Este é só um exemplo, mas muitos mais existem pela cidade como os antigos armazéns dos Elias, já para não falar nos edifícios em construção com as obras paradas há anos, como por exemplo os edifícios junto ao CCC.
E como está a cidade propriamente dita? Como todos nós constatamos todos os dias, a nossa cidade, está desleixada, desorganizada e mal cuidada. Contentores de lixo subterrâneos avariados, que não são reparados, mas colocam-se outros em segunda linha, lixo que se acumula à volta dos contentores. As bicicletas e as trotinetas andam em cima dos passeios e em contra mão, sem qualquer controle, os automóveis estacionam em cima dos passeios, em 2ª fila, em ruas pedonais, em cima das passadeiras de peões, qualquer local serve para estacionar o automóvel, obrigando os peões a andar fora do passeio. A sinalização de transito está em parte obsoleta e mal colocada, outra desapareceu e nunca mais foi reposta. À noite a iluminação é insuficiente ou deficiente em grande parte da cidade, não existe qualquer iluminação própria para passadeiras de peões. Temos uma praça que durante grande parte do dia serve de armazém de esplanadas, pois quando as esplanadas fecham as cadeiras e as mesas são empilhadas e deixadas na rua. Temos passeios, que ligam a Praça da Fruta com o estacionamento do CCC, com menos de 50 cm de largura, onde nem uma pessoa consegue andar. É assim que vamos atrair pessoas para a cidade? Mas uma boa parte destas questões poderia ser resolvida de olhássemos para o que fazemos e tivéssemos muito mais cuidado, do que temos, com o nosso próprio civismo e com o respeito que demonstramos pelos outros. Mas temos também de perguntar o que a Câmara Municipal fez e faz para melhorar o aspeto da cidade, do transito, dos passeios, da sinalização, da iluminação, do lixo, nos últimos anos, infelizmente, nada tem feito e tem deixado fazer quase tudo, perdendo o controle da própria cidade, não podemos deixar que isto continue a acontecer.
No aspeto cultural, o investimento mais importante feito na cidade, foi sem dúvida o Centro Cultural e de Congressos, fundamental para as Caldas da Rainha e que tem funcionado e desempenhado o papel para o qual foi criado. Noutra área da cultura, nas últimas décadas foram criados e construídos vários museus que integram hoje o Centro de Artes e que juntamente com o Museu José Malhoa e o Museu da Cerâmica, poderiam ser uma importante atração de visitantes às Caldas. O Museu da Cerâmica, atualmente encontra-se encerrado, para elaboração de estudo de requalificação do edificado, o que traduzido para português corrente significa, que vai continuar fechado uns bons anos. Os restantes museus do Centro de Artes estão mais tempo fechados do que abertos. Afinal construíram-se museus ou armazéns de coleções de arte?
O comércio das Caldas é representado por uma das mais antigas associações comerciais do país, a ACCCRO, que nos últimos anos pouco tem feito pela promoção do comércio e da cidade, está completamente amorfa e desfasada da realidade. Com uma alteração de estatutos, efetuada em 2018, aumentou a sua área de influencia, passando da exclusividade dos concelhos de Caldas da Rainha e Óbidos à abrangência de todos os concelhos do Oeste. Embora continue e representar o comércio, os serviços, a hotelaria e a restauração, passou também a adotar uma terminologia mais abrangente, ou seja, uma representatividade empresarial. Mesmo com este aumento de representatividade geográfica, continuou a perder associados a olhos vistos (nos últimos 25 anos passou de perto de 1000 para perto de 600 associados), denotando um afastamento brutal entre a associação e os comerciantes, ou se quisermos os empresários. A única época do ano em que a ACCCRO acorda é no Natal, obrigando a Câmara Municipal a gastar na animação de Natal (iluminações incluídas) aproximadamente 300.000€ (valor aproximado gasto no Natal de 2024). A pergunta que se deve colocar é: então e no resto do ano o comércio e a cidade não precisam de ser promovidos? Já que estamos a falar de comércio, o que é que a Câmara tem feito em prol do comércio da cidade (com a exceção da animação e das iluminações de Natal)? Pois, pouco ou nada, por incrível que pareça, tomando mesmo decisões que em lugar de ajudarem o comércio, ainda o prejudicam mais. Vejamos, em menos de um mês aprovou e autorizou a construção de uma nova grande superfície dentro da malha urbana da cidade, justificando sempre que não tinha maneira de não autorizar, mas não autoriza a instalação de uma nova farmácia na cidade, dá que pensar, não dá?
Entender uma cidade é uma tarefa complicada, extensa e difícil, mas não é de todo impossível. Tentando explicar de uma forma o mais simples possível, o movimento de uma cidade, ou melhor, a vida de uma cidade, assenta num equilíbrio entre muitos fatores e uma mudança num simples fator, pode alterar esse equilíbrio de um momento para o outro, se não houver ações que compensem ou contrariem essa mudança. O equilíbrio de fatores que existia nas Caldas há perto de 30 anos, que permitia ter uma vida na cidade de grande qualidade e que permitia que o comércio se expandisse, não é de perto nem de longe o que temos atualmente nas Caldas. O balanço entre o que se perdeu e o que se ganhou, está claramente para o lado do que se perdeu. O que se perdeu, quer por razões endógenas, quer por razões exógenas, não foi de modo nenhum compensado. O movimento e a vida da cidade foi-se deteriorando até aos dias de hoje e a continuar assim a cidade vai definhando até que o comércio deixe de ter qualquer interesse para os consumidores e se transforme, quem sabe, apenas em comércio de conveniência. É isto que queremos para a nossa cidade? Não sei o que os caldenses querem, mas sei o que quero. Quero uma cidade com vida, com movimento na rua, com comércio de qualidade, quero ter uma cidade atrativa e moderna, quero uma cidade com qualidade de vida, que consiga afirmar-se inequivocamente como a capital do Oeste. Também sei o que não quero, não quero amanhã olhar para a minha cidade e ver uma triste cidade fantasma.
Constatámos o que perdemos e o pouco que foi feito para colmatar as perdas. Temos uma ideia do que queremos para a cidade das Caldas e também sabemos o que não queremos. Mas o que se pode fazer para inverter o rumo da atual situação da cidade e qual é o contributo possível dos comuns munícipes como nós? Para encontrar a resposta a essa pergunta, vai ter que aguardar pela 3ª parte desta crónica.
Nota A: informação e imagens retiradas de https://www.caosplanejado.com/explicando-a-pedestrianizacao-e-seus-beneficios
Pode encontrar a 1ª parte desta crónica AQUI
Pode encontrar a 3ª parte desta crónica AQUI
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