A saúde política do Oeste em política de saúde deveria ser um caso de estudo.

Há anos que o Oeste assiste a uma redução da resposta hospitalar. Não é só pela falta de médicos, mas também pela gestão do governo central.

No tempo de José Sócrates, a ministra da saúde Ana Jorge, encaminhou os utentes para os hospitais limítrofes da região, reduziu a capacidade hospitalar e consequentemente definiu o futuro do Oeste.

Com a PPP do Hospital de Beatriz Ângelo (em Loures) foram retirados 40 mil utentes ao hospital de Torres Vedras e em vez de 210 mil utentes passou a 170 mil. Ora as valências de um hospital estão diretamente relacionadas com a escala da unidade. A argumentação era aliviar a unidade, mas a consequência é outra, um ciclo: menos médicos, menos valências, menos orçamento, menos médicos…

Da mesma forma, a mesma ministra “resolveu” o problema a Norte (Caldas da Rainha, Alcobaça, Nazaré…) enviando para o sobrelotado hospital de Leiria 45 mil utentes, “esvaziando” a capacidade de resposta do Hospital de Caldas em vez de a reforçar.

O plano com estas duas unidades foi, anos mais tarde, uni-las no Centro Hospitalar do Oeste (CHO). Na realidade a estrutura orgânica ajudou a minimizar alguns problemas, mas a escala das duas unidades que dava resposta a cerca de 290 mil pessoas incluía 56 mil utentes do Concelho de Mafra que acabaram ao longo dos anos por se dirigir para a unidade a Sul, em Loures, pois era equidistante da unidade de Torres Vedras mas com condições físicas manifestamente superiores.

Assim, o CHO continuou a ver a capacidade de resposta cada vez mais reduzida e os utentes orientados para fora da região.

O Oeste e o Estuário do Tejo (Vila Franca de Xira) são as regiões com o maior número de utentes sem médico de família da região de Lisboa e Vale do Tejo. Concursos abrem e fecham sem preencher as vagas.

Fonte: https://bicsp.min-saude.pt/pt/biufs/3/Pages/default.aspx

O pseudo estudo encomendado

Em 2021, a Associação de Municípios do Oeste (que não inclui Mafra) resolveu contratar uma empresa para estudar o “Futuro da Política Pública da Saúde do Oeste”. O orçamento foi claramente diminuto para tamanha façanha. Por aproximadamente 88 mil euros a AD NOVA IMS – Associação para o Desenvolvimento da Nova Information Management School foi a “empresa” selecionada.

O universo do estudo envolvia 425 mil utentes, englobando todos os conselhos da Associação: de Arruda dos Vinhos a Alcobaça. Incluía também Mafra à exceção de três freguesias. Sem qualquer indicação no documento, suponho que fosse devido a pertencer à área de influência do Hospital Beatriz Ângelo, mas levanta-se a questão de outras freguesias e concelhos pertencerem a outras unidades como Vila Franca de Xira (Alenquer e Arruda dos Vinhos) ou Leiria (Nazaré e Alcobaça) e não foram excluídos.

Na realidade em momento algum é feita uma análise sobre as unidades hospitalares periféricas à região.

O documento começa com entrevistas aos utentes para ter uma “perceção” dos cuidados de saúde do Oeste. Ora perceção de pouco vale quando analisamos assunto tão sério! O número de entrevistados: … 8! Relembro que o universo do estudo é de 425 mil utentes!

A verdadeira intenção do estudo era apresentar a localização para um novo hospital. Em momento algum é explicado o porquê de apenas uma unidade, considerando que o Norte do distrito de Lisboa necessita de uma resposta hospitalar e o Norte da região tem um diminuto hospital em Alcobaça sobrecarregando as unidades de Loures e Leiria, respetivamente.

Assim, é referido no estudo que as 3 unidades hospitalares do CHO seriam fechadas para dar lugar a uma outra, mais central ao território (Um pequeno detalhe: não é feita qualquer referência à unidade em Alcobaça e qual o seu futuro. Porquê? Talvez constrangimentos orçamentais tenham levado a tal esquecimento!).

Sem mais nenhum elemento de análise, é feito um levantamento dos tempos e distâncias e definida a centralidade.

De Arruda dos Vinhos a Pataias ficamos a saber que o centro do Oeste é sensivelmente no Bombarral. Ora Arruda dos Vinhos está a 15min do seu hospital de referência (Vila Franca de Xira). No entanto é apresentado que irá fazer 45 min para esta nova unidade. O mesmo acontece com a maior parte da população do concelho de Alenquer.

Mapas com tempos e distâncias

Arruda dos Vinhos – Hospital Vila Franca de Xira
Arruda dos Vinhos – Hospital do Bombarral
Mafra – Hospital Beatriz Ângelo
Mafra – Hospital do Bombarral

Também é interessante ver que o estudo encomendado indica que Mafra (servida pela A21) se encontra mais longe da nova unidade hospitalar no Bombarral do que do Hospital Beatriz Ângelo.

Na realidade a “centralidade” considerou 125 mil utentes que têm hospitais mais perto. A grande maioria a Sul da região. Talvez se a análise não considerasse esses concelhos e freguesias teríamos uma outra “centralidade”. Mas o facto é que a solução apresentada de apenas uma unidade condicionou todo o processo. Fosse incompetência ou intencionalidade, o resultado é gravoso para um estudo de tamanha importância.

O ministro da saúde do governo de António Costa, Dr. Manuel Pizarro alinhou com a ideia apresentada no estudo de uma única unidade. Indicava poupança. Além disso desresponsabilizava o ministério de promover o encerramento das várias unidades de saúde do CHO… esse papel foi assumido pelos autarcas por unanimidade.

No entanto Caldas da Rainha e Óbidos contestaram a localização e o ministro criou um “grupo informal”, “multidisciplinar”, com a ex-ministra Ana Jorge, para reanalisar o assunto. Este grupo analisou os “documentos” e o ministro veio às Caldas apresentar as conclusões: um hospital para 280 mil utentes, no Bombarral com mais cinco valências do que as que existem.

Por esta altura decorria no ministério um outro estudo… o das Unidades Locais de Saúde que definiram a área de influência de todos os serviços de saúde e que incluem as Unidades de Saúde Familiar, Centros de Saúde e Hospitais. Tudo sob uma mesma tutela e orçamento.

Na altura da apresentação das conclusões pelo ministro, já Leiria tinha apresentado a sua ULS ignorando a reestruturação da região. Sem considerar “tempos e distâncias” englobou todo o concelho de Alcobaça na ULS de Leiria, incluindo freguesias que se encontram mais perto do Bombarral do que de Leiria. A dualidade de critérios é comum nesta região! Relembro que esta ULS tem 3 unidades de saúde: Pombal, Leiria e Alcobaça e em momento algum se considerou encerrá-las!


A entremeada das Unidades Locais de Saúde na região Oeste

Mas passados 6 meses da apresentação do ministro e já com o governo demissionário tudo é alterado. Já não foram precisos pareceres nem estudos encomendados.

O ministro assina uma “entremeada” das ULS na região Oeste.

Como Mafra continuaria a sobrecarregar o Hospital Beatriz Ângelo devido à proximidade e sem que este fosse capaz de absorver 56 mil utentes, o ministério apresentou uma outra solução.

Assim temos a ULS de Santa Maria, depois temos a ULS de Loures, voltamos a ter a ULS de Santa Maria e depois temos a ULS do OESTE com 235 mil utentes.

Fonte: https://bicsp.min-saude.pt/pt/biufs/3/Pages/default.aspx

Ao contrário do que foi apregoado, acontecerão despedimentos na área da saúde e as valências ditas como investimentos no Oeste não passam de propaganda política. As consequências da ULS ter 235 mil utentes já se começaram a notar com o encerramento e/ou constrangimentos nas especialidades.
Sabemos que o resultado da ULSO de 235 mil utentes cria uma estrutura pequena para dar resposta ao Oeste. Os utentes continuarão a ser atendidos, mas nos hospitais da periferia. Tal como há 15 anos, as ações dum ministro voltam a definir a redução dos cuidados de saúde no Oeste.

É interessante que o ministro nunca foi confrontado pelos autarcas.

Talvez devido à relação partidária…

Também é interessante que entre a apresentação pública do ministro e a assinatura das novas ULS’s, o ministério tenha avançado, em outubro de 2023, com um concurso público do modelo de financiamento da unidade no Bombarral. A PricewaterhouseCoopers (PWC) foi a escolhida para elaborar o estudo (por 85 000€) a 22-2-2024. Ora se em outubro o plano era um hospital para 280 mil, em fevereiro já a ULSO estava em funcionamento à 2 meses para 235 mil utentes. E mesmo assim o concurso foi adjudicado(!?). Esse estudo estudou o quê? É outra das perguntas que nunca foi feita ao ministro.

As consequências políticas para a região serão óbvias. O Governo que avançar com o hospital será acusado de o reduzir, pois publicamente nunca foi apresentada a verdadeira dimensão da unidade bem como as suas valências. No entanto não faltam políticos na região a exigir o hospital sem sequer questionar que hospital!

Talvez seja mais uma pergunta que nunca seja feita como quanto recebeu a Drª Ana Jorge.

Ou porque estava o ministro a desenvolver um estudo de um hospital (escala e especialidades) enquanto o ministério definia a área e consequentemente a sua escala.

Ou porque não é criada na região Norte do distrito de Lisboa uma ULS que colmatasse as necessidades e evitasse enviar utentes para Santa Maria. Um hospital nessa região responderia a cerca de 220 mil utentes e considerando o crescimento populacional seria essencial para aliviar a pressão no Hospital Beatriz Ângelo e no Hospital de Santa Maria.

Ou considerando a nova realidade de Mafra para quando será construida uma unidade hospitalar provando que o Oeste sempre precisou de duas estruturas hospitalares.

Ou porque o desenho da região de Caldas não envolve Alcobaça e Nazaré que se encontram (por minutos) mais perto de Caldas do que de Leiria aliviando o sobrelotado Hospital.

Ou qual a necessidade de uma ULS do Oeste se as valências não existem e teremos que ser atendidos em Leiria ou em Lisboa. Porque não dividir a região a Sul com Torres Vedras e Loures e a Norte com Caldas e Leiria correspondendo às ACES do Oeste.

Mas este foi o resultado de um estudo que começou com respostas em vez de perguntas.

E o mais certo é ninguém perguntar nada… !

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2 comentários a “A DOENÇA DO OESTE”

  1. Avatar de António Marques Gonçalves Curado
    António Marques Gonçalves Curado

    Gostei de ler. Parabéns ao Luís Rosa pela reflexão e pela fundamentação, na qual me revejo em muitos dos pontos, mas não na conclusão final.
    Alguns comentários:
    1. Sim, o Oeste é das regiões do País que mais camas de cuidados hospitalares públicos perdeu desde 2009. Perdeu camas de internamento no Hospital do Barro, em Torres Vedras, perdeu camas de internamento no Hospital Termal e o Hospital de Alcobaça passou para Leiria.
    2. Sim, não era à OesteCIM que competia promover um estudo sobre um novo Hospital para o Oeste, mas sim ao governo.
    3. Sim, esse estudo foi enviesado nos seus pressupostos, no caderno de encargos, não fazendo sentido fazer um estudo para um Hospital para um território duma Comunidade Intermunicipal com 12 concelhos, sendo que alguns deles, como muito bem demonstrou, estão bem servidos por outros hospitais.
    4. Sim, a criação das ULS foi precipitada, criando uma manta de retalhos e áreas de influência mal definidas.
    5. Sim, a criação da ULS Oeste foi criada com uma área populacional de abrangência de 235000 habitantes, quando o que se pretendia era (é) um Hospital para 300000 habitantes. Sendo que as ULS são financiadas por capitação, o que representa, mais uma vez um estrangulamento do Oeste.
    6. Com a Lei do Livre Acesso a área de influência dos Hospitais não se restringe ao espaço que foi desenhado para as atuais ULS. Algumas das franjas, nomeadamente a Sul, derivam para outros hospitais, designadamente de Lisboa e, em contrapartida, há áreas que não pertencem no papel à ULSO e que recorrem aos nossos Hospitais. Continuam a vir a Caldas da Rainha, doentes de Rio Maior (teoricamente pertencentes a Santarém) e doentes de Alfeizerão, Benedita ou S. Martinho do Porto (teoricamente pertencentes a Leiria):
    7. Acresce ainda o redesenho de novas áreas administrativas, as NUTS, e nomeadamente a criação da NUTS II.
    8. A necessidade de redefinição de novos recursos hospitalares desde há muito tempo que é conhecida. A diferenciação dos Hospitais mede-se, à falta de melhor critério, pelo nível das suas Unidades de Urgências: hospitais com urgência básica ou com urgência medico-cirúrgica ou com urgência polivalente. No nosso território temos duas urgências médico- cirúrgicas (Caldas da Rainha e Torres Vedras) e uma básica (Peniche). Em 2006, no tempo do Ministro Correia de Campos, foi criada uma Comissão para estudar a rede de urgências no território nacional. O que essa Comissão viria, mais tarde, a concluir para o Oeste era o seguinte: manutenção da urgência medico-cirúrgica de Caldas da Rainha, encerramento da urgência básica de Peniche e passagem da urgência de Torres Vedras de médico-cirurgica para básica. Já nessa altura se pensava nos meios e recursos disponíveis.
    9. O Oeste precisa dum único Hospital, bem diferenciado, apetrechado para dar resposta a cerca de 300000 habitantes, que não se compadece com as atuais áreas de referenciação das ULS.
    10. A questão das acessibilidades, as redes rodoviárias e ferroviárias, assume uma especial importância. A localização do novo Hospital junto ao nó rodoviário das Gaeiras, em terrenos dos concelhos de Caldas da Rainha e Óbidos, com acessos fáceis e rápidos para norte (Alcobaça), para Leste (Rio Maior), para Oeste (Peniche), para Sul (Bombarral, Cadaval, Lourinhã e Torres Vedras) faz todo o sentido.
    11. Numa lógica dum futuro Serviço Nacional de Saúde pujante (não será o caso, a julgar pela evolução dos acontecimentos) teria lógica criar, nas franjas deste território (Torres Vedras ou Lourinhã, por exemplo) clinicas de ambulatório dependentes do Hospital, onde se realizassem algumas consultas de especialidades e alguns exames complementares de diagnóstico. As urgências hospitalares e o internamento ficariam (ficarão) centradas exclusivamente num único Hospital. Só assim se conseguirá dar resposta de qualidade às populações.

    1. Avatar de Amador Pedro Fernandes
      Amador Pedro Fernandes

      Dr. António Curado, o seu comentário a este artigo, é exatamente o tipo de participação ativa, cívica, livre e democrática, que se quer promover com a Plataforma262. Permitir que os cidadãos expressem as suas ideias livremente e recebam dos demais concidadãos as suas opiniões, sejam elas concordantes ou discordantes, no intuito de promover um debate cívico e democrático. Obrigado pelo seu comentário.

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