
Muito se tem falado de mobilidade sustentável, mas muito pouco ou nada se tem feito por ela na Cidade das Caldas da Rainha, cada passo que não se dá na implementação de uma mobilidade urbana sustentável é mais um passo atrás na qualidade de vida da Cidade. De uma vez por todas, temos de reduzir drasticamente a circulação dos automóveis particulares dentro da nossa Cidade, temos de ter a coragem necessária para devolver as ruas às pessoas, para que a Cidade respire novamente.
E é mesmo sobre o ar que respiramos, que vamos falar hoje. A Cidade das Caldas da Rainha, não tem qualquer comparação com a cidade de Paris, de qualquer modo o resultado na qualidade do ar das alterações feitas em Paris, teria proporcionalmente o mesmo efeito no ar que respiramos nas Caldas.
Nos últimos 20 anos, Paris sofreu uma grande transformação física, trocando as artérias automóveis por ciclovias, acrescentando espaços verdes e eliminando 50.000 lugares de estacionamento (leu bem, são mesmo 50.000 lugares eliminados). Paris despediu-se dos automóveis. Parte do resultado é invisível — é o próprio ar que se respira. Os mapas de poluição do ar revelam uma mudança drástica. A poluição do ar caiu substancialmente à medida que a cidade restringiu o tráfego automóvel e criou espaço para verdadeiras zonas verdes e ciclovias.

Os mapas da poluição do ar mostram os níveis de 2007 com um vermelho pulsante — quase todos os bairros acima do limite da UE para o dióxido de azoto (NO2), que resulta da queima dos combustíveis fósseis. Em 2023, a zona vermelha reduziu-se a uma pequena rede de linhas finas que atravessam e circundam a cidade, representando as ruas e as vias rápidas mais movimentadas.
Esta mudança demonstra como políticas públicas ambiciosas podem melhorar diretamente a saúde e a qualidade de vida nas grandes cidades. A poluição do ar é frequentemente descrita pelos especialistas de saúde como uma assassina silenciosa. Tanto as partículas finas (PM 2,5) em suspensão no ar, como o dióxido de azoto estão associados a graves problemas de saúde, incluindo ataques cardíacos, cancro do pulmão, bronquite e asma.

A monitorização da qualidade do ar na região da capital francesa, é feita pelo grupo independente Airparif. Este grupo, anunciou em Abril de 2025, que os níveis de partículas finas (PM 2,5) diminuíram 55% desde 2005, enquanto os níveis de dióxido de azoto caíram 50%. Atribuiu isto às “regulamentações e políticas públicas”, incluindo medidas para limitar o transito automóvel e proibir os veículos mais poluentes.
Desde 2014, Paris é governada pela presidente da Câmara, Anne Hidalgo, do Partido Socialista, que impulsionou muitas das políticas ambientais e descreveu o seu desejo por “uma Paris que respira é uma Paris mais agradável para se viver”. As suas propostas enfrentaram resistência — por parte de políticos de direita, de uma associação de proprietários de automóveis e de moradores dos subúrbios que se deslocam diariamente para o trabalho e que afirmavam que a restrição aos automóveis lhes dificultava a vida.
Mas, em Março de 2025, os parisienses votaram e aprovaram com 66% de votos a favor, um referendo para tornar mais 500 ruas exclusivas para peões, a juntar a outras 300 onde o transito automóvel já era proibido. Um ano antes, Paris tinha aumentado drasticamente as taxas de estacionamento para os SUV, obrigando os condutores a pagar três vezes mais do que pagariam por carros mais pequenos. A cidade também transformou uma margem do Sena, antes uma via movimentada, numa zona pedonal e proibiu a maior parte do tráfego automóvel Rue de Rivoli, uma das mais famosas ruas de Paris, conhecida pelo seu comércio, que inclui algumas das marcas mais elegantes do mundo.
Carlos Moreno, professor na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e antigo consultor da cidade, afirmou que a capital francesa desenvolveu “uma política urbana baseada no bem-estar”.
A Cidade das Caldas não precisa de eliminar o transito automóvel em 800 ruas como Paris, mas o encerramento aos automóveis de uma boa dúzia de ruas no centro da Cidade era um passo de gigante na qualidade de vida da Cidade e uma melhoria muito significativa na qualidade do ar que respiramos todos os dias.
Traduzido e adaptado de um artigo publicado em Abril de 2025 no The Washington Post, da autoria de Naema Ahmed e Chico Harlan.
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